SOBRE A MEGAMINERAÇÃO DE FOSFATO EM LAVRAS

 

Em março de 2019 estive com alguns colegas da FURG na audiência pública em Lavras do Sul à  respeito  do projeto de mineração de fosfato em Lavras do Sul.  Entristeceu-me a impressão que causamos,  de que a universidade está contra o desenvolvimento de Lavras. Entristeceu-me que não tivéssemos tido  mais oportunidade para explicar o porque viemos de longe para  estarmos ali participando de assuntos que aparentemente  não nos dizem respeito.

Fomos para dizer que estamos com Lavras  na sua busca do bom desenvolvimento, e não ao contrário, não fomos defender o atraso, o desemprego, a falta de oportunidades. Não colocamos espécies de plantas e animais acima das pessoas. Todos temos direito à vida!

 Fomos para dizer que sabemos o quão legítimo é o anseio desta comunidade por empregos, por desenvolvimento, por mais oportunidades. Não ignoramos que a arrecadação  gerada pelo empreendimento faz falta para o estado, dado  a crise já crônica em que se encontra; Um estado eu se diz refém de uma lei [1]que prejudica a sua economia, mas que na verdade é refém de um modelo de desenvolvimento conservador,  concentrador de renda,  e ambientalmente insustentável,  que é o agronegócio.

Mas sabemos também que quando o estado se ausenta, a empresa privada ocupa os nichos vazios  para os seus próprios  interesses, e o interesse para o qual existem as empresas privadas é o lucro!

Assim aconteceu com  a região fumageira do Rio Grande do Sul: A rica e diversificada produção agrícola de outrora cedeu lugar para a produção de fumo, porque  o estado não desenvolveu políticas públicas para promover e organizar as cadeias produtivas. Então a empresa privada fumageira o fez,  e estabeleceu as normas. É verdade que a comunidade rural daquela região tem um elevado nível de conforto material, mas é verdade também  que ostenta  os maiores índices de suicídio do mundo, por conta dos venenos empregados na cultura do fumo,que afeta o sistema nervoso do homem do campo, levando-os ao suicídio ( O problema é tão preocupante ao ponto de a Souza Cruz publicar um livreto ensinando às pessoas a como evitar o suicídio). Não é esse o modelo de desenvolvimento que sonhamos para a metade sul do estado! Um modelo que precisa envenenar o solo, as  águas, e matar as  pessoas que produzem e que consomem essa produção, e pela qual o próprio estado gasta vultosos recursos em serviços de saúde para atender a uma população doente pelo fumo.

Assim aconteceu  também em Lavras e Minas do Camaquã. Quando as empresas de mineração exauriram os recursos, abandonaram a cidade e deixaram para trás um rastro de degradação ambiental  e desesperança[2]. As cidades esvaziaram-se e o estado, que deveria promover o be estar social, se ausentou novamente.  Onde foram investidos os recursos gerados por séculos de mineração na região? Por que ainda a região ostenta os piores indicadores de desenvolvimento do estado?  Também não é esse o modelo de desenvolvimento que sonhamos!          

As  fronteiras agrícolas , já esgotadas na metade norte do estado, avançam para o norte e para o sul: Para o norte eliminaram  o bioma Cerrado e desequilibraram o clima do estado de São Paulo, e avançam  para a Amazônia já tão vilipendiada pelos madeireiros, pelos grandes projetos de mineração e pelas gigantescas hidrelétricas, e começam desequilibrar o clima do país e do mundo; para  o sul avançam para o Bioma Pampa, substituindo rapidamente os campos e matas nativas por soja, envenenando os campos e mananciais.

Também não é esse o modelo de desenvolvimento que sonhamos!

O papel da universidade pública federal é de pensar o país, de fazer a crítica permanente a esse modelo de desenvolvimento vigente, excludente, concentrador de renda, ambientalmente impactante .

Surge agora em Lavras uma “tábua da salvação”, para explorar  um novo recurso mineral e recomeçar o ciclo.  Em síntese,  serão em torno de 300 empregos permanentes diretos e mais de mil hectares de  campos, banhados, matas e nascentes eliminadas. É certo que o empreendimento ocupará apenas 0,4% do território de Lavras, mas o aterro de nascentes secará rios e matará as matas ciliares, matará animais terrestres e peixes e as barragens de rejeito colocarão em risco as gerações futuras.

E assim temos o projeto de mineração de fosfato em Lavras, de chumbo em Minas do Camaquã, de minerais pesados em São José do Norte  e tantos outros que estão planejados para o bioma Pampa. O que não será minerado será transformado em plantações de soja?  É esse o modelo de desenvolvimento que rapidamente vem sendo implantado na metade sul e que nos assombra. Um modelo que desconsidera os enormes custos ambientais e  exaure o solo, contamina as águas e elimina a fauna, deixando para as gerações futuras um cenário de destruição ambiental.

Mas que alternativas existem para as empobrecidas comunidades da metade sul?   

Cabe ao estado o dever de promover o bom desenvolvimento para assegurar emprego, educação, saúde e renda para as gerações atuais e  também futuras, através de boas políticas. Não é preciso re-inventar a roda, bastaria fortalecer a pecuária tradicional, a agricultura e a agroindústria de base familiar, o turismo, a piscicultura de espécies nativas, e tantas outras formas de desenvolvimento que  respeitem e valorizem a cultura e o meio ambiente local. Mas é mais fácil apoiar mega projetos que alimentem a roda da destruição do planeta, gerem poucos empregos e gere uma rápida arrecadação,



[1] Lei Kandir

[2] . A esse respeito preocupa-me o risco da área de rejeito abandonada a anos,  venha a causar uma catástrofe,  semelhante às de Mariana e Brumadinho.


Comentários