BEM VINDOS AO SÉCULO XX !
Diante
das evidências amplamente reconhecidas pela comunidade científica internacional
de uma emergência climática global sem precedentes, é surpreendente que o pais ainda esteja discutindo a idéia de
investir recursos vultosos em um megaempreendimento para exploração de carvão, reconhecidamente a
mais danosa forma de geração energética, denotando uma visão obsoleta de
desenvolvimento econômico e uma falta de um planejamento estratégico para o
país no enfrentamento dos enormes
desafios de ordem econômica, social e ecológica que se configuram para esse
século. Ao invés de reduzir suas emissões de Carbono, tal como estabelecido no
Plano Nacional para as Mudanças Climáticas o país experimentou um aumento de 9,2% em 2019 em relação ao ano anterior.
A
audiência pública promovida pela Assembléia Legislativa do RS realizada no dia
14 de julho sobre a exploração do carvão
mineral no RS foi alarmante. Não
tanto pela assimetria na composição dos convidados a palestrar, e na
disparidade de tempo alocado entre esses e aqueles que se posicionavam
contrários a tal projeto, mas pela miopia expressada nos discursos da maioria das lideranças alí presentes.
Dado ao estado de penúria dos pequenos
municípios da metade sul que tiveram um passado glorioso de mineração - prova inequívoca de que a mineração
tal como se pratica no estado não é sustentável - compreende-se o anseio legítimo e apaixonado dessas lideranças por oportunidades de
crescimento econômico. No entanto, estas tratavam os pesquisadores presentes, alarmados
com o negacionismo da crise climática global, com o epíteto de ambientalistas, como se
fossem inquestionavelmente suspeitos de uma profunda perversão de caráter por
defenderem a natureza, acima das
pessoas, como se fosse possível separar ambas as partes. Sobraram declarações como: vocês não vivem lá; não deveriam se
imiscuir nas nossas questões; deixem de
mimimi; outros países cresceram usando o carvão portanto também queremos fazer
o mesmo; a Índia e a China estão
investindo no carvão; ou ainda, vocês que são contrários à mineração não deveriam usar celulares, e por ai vai.
A
título de ilustração da gravidade da questão climática que a humanidade está
enfrentando, e que tomadores de decisão parecem ignorar, um desprendimento de
um bloco de gelo na Antártica recentemente tornou-se o maior iceberg do planeta
- identificado como A76 -, ironicamente
noticiado pela Agencia Espacial Europeia um dia antes da audiência
pública relativa ao projeto da Termoelétrica a carvão em Candiota. Ainda, nesse momento, os Estados Unidos estão
queimando com uma temperatura recorde mundial de 54 graus Celsius. Com o valor do investimento de 1,3 bilhões de
dólares, tal como enunciado na audiência pública anterior referente à essa
termoelétrica, seria possível instalar sistemas de aquecimento solar para 500
mil residências, isso sem contar os enormes custos de recuperação ambiental.
Sabemos
que a sociedade moderna não pode
prescindir da atividade minerária, mas felizmente pode sim prescindir da
mineração de carvão, pois há muitas alternativas tanto energéticas quanto de
desenvolvimento econômico e geração de empregos. Basta o estado fazer a sua
parte de indutor através de políticas públicas adequadas. A metade sul tem muitas potencialidades ainda pouco exploradas de desenvolvimento rural e turístico,
sabidamente distribuidor de renda, e que valoriza - não as destrói – as
riquezas locais como o solo, as paisagens, a biodiversidade, a cultura. Novos
caminhos de bom desenvolvimento regional
vem se mostrando altamente positivos
como a produção de vinhos, azeitonas, azeites,
além dos tradicionais, como a produção de carne e lã de alta qualidade.
Discutir
o carvão como fonte energética nos dias de hoje é de um anacronismo inacreditável que nos remete à Revolução Industrial no final do século IXX , enquanto os países desenvolvidos estão descarbonizando suas economias e investindo
pesadamente em fontes limpas, como carros elétricos, energia solar, eólica e
até das ondas do mar.
É correto o argumento de que as energias limpas,
como as eólicas e solares são formas complementares de energia, uma vez que não
tem a constância das termoelétricas, ou das hídricas, no entanto, o uso de fontes complementares
libera energia dessas últimas para usos de alta demanda, notadamente no setor
industrial.
A
incapacidade do estado em assumir o seu papel de protagonista de promotor
do bom desenvolvimento leva as
lideranças locais a aceitarem a barganha de Fausto, agarrando-se a uma tábua de
salvação que na verdade condena o futuro da região ao ocaso, ao atraso, à
destruição da natureza .
Os
valores ecológicos do pampa , sua fauna e sua rica flora constituem nossa herança tanto quanto
os veios de carvão embaixo da terra e, sim, isso também diz respeito não só à
comunidade local, mas a todos os cidadãos, filhos que somos do mesmo chão e
compartilhamos desse mesmo planeta .
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